AMOR À VIDA vive período crítico

A estreia de Walcyr Carrasco assinando o produto mais nobre da grade da Globo aconteceu cercada de expectativas. O primeiro capítulo eletrizante, seguido de desdobramentos de uma trama densa, fez com que o espectador ficasse preso diante da telinha logo de cara. O vilão Félix (Mateus Solano) virou vedete instantânea, a busca de Paloma (Paolla Oliveira) por sua filha era envolvente, e uma série de tramas paralelas fez a trama “pegar”. Mesmo com uma ou outra falha (como acontece com qualquer novela), Amor à Vida, no geral, parecia uma boa novela.

Entretanto, atualmente, a obra atravessa uma fase crítica. Amor à Vida parece andar em círculos e, tal qual sua antecessora Salve Jorge, começa a abusar de artifícios insustentáveis para poder permanecer no ar. Walcyr Carrasco parece querer seguir da cartilha de Gloria Perez e quer fazer o público “voar”, embarcando numa trama difícil de engolir. Tal fato começou logo quando Paloma acusou Bruno (Malvino Salvador) de tê-la roubado a filha, e o moço nem ao menos se defendeu. Claro, se ele tivesse contado a verdade ali, a novela entrava na reta final. O problema é que não havia justificativa plausível para compreender o silêncio do rapaz. Ficou esquisito.

Nos últimos capítulos, a coisa degringolou de vez. Félix, utilizando-se de seu poder de persuasão inacreditável (ele convence todo mundo a fazer qualquer idiotice, já percebeu?), encorajou Ninho (Juliano Cazarré) a sequestrar a filha biológica Paulinha (Klara Castanho). Ninho, que parece ter uma ameba no lugar do cérebro, foi convencido de que essa era a maneira ideal de se aproximar da filha e tentar reconquistar Paloma. Mas... hein? Na lógica absurda do hippie, sequestrar uma criança é uma prova de amor. Faz todo o sentido, não?

Tudo bem que Ninho sempre foi um personagem controverso, mas no início da história ele não era tão idiota. O personagem vem se desenvolvendo sob um erro de concepção que chega a irritar. E ele é o terceiro vértice do triângulo amoroso principal da trama. Se o casal Paloma e Bruno já mostrou que não tem a menor liga, como embarcar nesta disputa sendo que a terceira opção é um mané sem qualquer noção? Juliano Cazarré precisa cortar um dobrado para imprimir alguma credibilidade a este homem tão sem propósito. Difícil. Aliás, toda essa sequência do sequestro tem gerado situações absurdas, que se arrastam indiscriminadamente.

Se as tramas paralelas de Amor à Vida já pecavam pela constante repetição, imagine quando o círculo vicioso atinge o núcleo principal? A novela simplesmente não anda. É um sequestro infundado cercado de bobajada por todos os lados. De bobajada entende-se Michel (Caio Castro) e Patricia (Maria Casadevall) se pegando toda hora, Valdirene (Tatá Werneck) tentando agarrar um homem rico, Amarilys (Danielle Winits) tentando agarrar o Eron (Marcello Antony), Tales (Ricardo Tozzi) e Leila (Fernanda Machado) sendo assombrados por Nicole (Marina Rui Barbosa) numa trama boboca toda vida, Perséfone (Fabiana Karla) tentando perder a virgindade... Nada muda!

Aliás, essa trama envolvendo a Perséfone é outra que não faz nenhum sentido. Por que diabos esta mulher bonita e fogosa não consegue perder a virgindade? Se ela fosse super tímida, seria compreensível, mas não é o caso. Perséfone é um vulcão. A enfermeira é uma mulher bonita. O fato de ser gordinha não justifica ela ser rejeitada do jeito que é. Na verdade, a novela reforça um preconceito com esta “brincadeira”. Tudo bem que é um núcleo de humor da história, mas até humor é preciso se fazer com alguma coerência e responsabilidade.

Neste meio-tempo, quem tem passado por altos e baixos é justamente Félix. O vilão entrou em cena roubando a novela para si, com seus trejeitos malucos e suas frases de efeito. Homossexual que vivia um casamento de aparências, foi descoberto pela mulher saindo com o “anjinho” logo de cara. Um prato cheio! Entretanto, passada a fase inicial, Félix caiu num marasmo. Seus bordões repetidos cansaram (todo mundo já entendeu que ele salgou a santa ceia), suas piadinhas inconvenientes passaram a irritar e todo o frisson em torno do personagem arrefeceu. Pois foi só a esposa Edith (Bárbara Paz, ótima!) botar a boca no trombone e contar para toda a família a verdade sobre o marido, que Félix ressurgiu das cinzas. Acuado, o vilão desmontou. Foi consolado pela avó (Nathalia Thimberg fabulosa), pela mãe (Suzana Vieira) e pela irmã, mas não conseguiu o perdão do pai César (Antonio Fagundes).

Esta sequência serviu para desnudar Félix diante da audiência. O público pôde perceber o que, afinal, move o personagem. Félix não se aceita como é, porque necessita da aprovação do pai, que o condena. Isso faz com que ele nutra um ódio contra quem quer que o ameace. Essa profusão de sentimentos, somada à sua ambição desmedida, o faz agir como age. Obviamente, isso não justifica suas maldades, mas explica. Félix foi humanizado. E isso deu um novo impulso ao personagem, que cresceu novamente e até  lançou mão de novos bordões.

Amor à Vida não é uma novela ruim, mas claramente sofre com problemas estruturais que podem comprometê-la. O fato de andar em círculos ainda estando tão longe de seu desfecho (a trama termina em janeiro) preocupa. Que outros absurdos mais Carrasco pode inventar até chegar ao final?

 Por André San

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5 comentários :

  1. Uma coisa que me irrita nas novas novelas do Carrasco é que ele gosta de agradar a audiência fácil. Qdo sua novelas vai caindo o ibope ele os maiores clichês de todas as novelas e assim agrada o publico fácil de novelas. Foi assim com Caras e Bocas e Morde e Assopra.
    Ele vai escrevendo o que o povo quer. Não tem ideias próprias ou novas. Se o povo acha que a novela ta parada ele manda um sequestro, se quer humor ela faz uma festa e tem guerra de comida, se querem um suspense ele bota fogo ou mata alguém é sempre assim. Uma pena.

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  2. Problema maior é o noveleiro que (até por falta de opção) se agarra ao último fiozinho de esperança de que logo, logo a coisa desenrola e vamos ver os vilões desmascarados, as tramas resolvidas... É claro que não engolimos tanta falta de verossimilança. Toleramos. Pior ainda é que gostamos dessa trolha toda e não perdemos um capítulo. Tudo pelo 1% que a novela tem de bom. =Gonzo=

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  3. Até concordo que algumas coisas são insuportáveis (tipo Michel e Patricia). Mas dizer que Bruno e Paloma não tem liga... será que estamos assistindo a mesma novela? Eu adoro esse casal.

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  4. Perdi completamente o interesse por essa novela. Vejo de vez em quando a Valdirene e olhe lá. Perdeu o rumo, completamente. Muito mal escrita. E é por essas e outras que prefiro Sangue Bom. Pra mim, a melhor novela deste ano.

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  5. Ainda bem que ele não "encheu" a novela de personagens s/ dar mais trama igual a Glória Peres.

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