“Flor do Caribe”: uma novela morna

A novela Flor do Caribe é daquelas produções que podem ser consideradas a prova de erros. Aposta-se em fórmulas já testadas e aprovadas anteriormente (temáticas batidas, para alguns), temperadas com um ar de modernidade, e cozinha-se tudo em “banho-maria”. Isso mesmo, receitinha de bolo das mais conhecidas. Ao apostar no arroz-com-feijão, o autor Walther Negrão acabou por trazer de volta parte do público afugentado por Lado a Lado. Mas, oferecendo ao público um prato morno, acabou obtendo resultados mornos.

Como seu principal objetivo era realmente resgatar a audiência perdida do horário das seis, Flor do Caribe cumpriu sua missão. Ofereceu uma trama água-com-açúcar, de fácil digestão, bem de acordo com sua faixa de exibição. O fato de ganhar o rótulo de mediana (audiência mediana, trama mediana, atuações medianas), entretanto, não desmerece Flor do Caribe. O folhetim teve seus suas qualidades.

A abordagem do nazismo, mesmo em pano de fundo, foi seu principal mérito. Ao contextualizar a rivalidade entre Dionísio (Sérgio Mamberti) e Samuel (Juca de Oliveira) oriunda do período do holocausto, Flor do Caribe já ofereceu um diferencial ousado, dentro da trama essencialmente leve e brejeira que tinha a contar. Dionísio, um velho chefão do nazismo dono de um passado de terror, era um vilão verdadeiramente assustador. Samuel, um ex-guerrilheiro atormentado pelas lembranças da Segunda Guerra Mundial, era seu contraponto, sendo a visão das vítimas do inferno daquele período monstruoso. Os dois atores protagonizaram cenas verdadeiramente intensas. Foi bom ver Sergio Mamberti num papel relevante numa novela, após anos acumulando participações como padre ou juiz.

Outro mérito de Flor do Caribe foi não economizar trama, principalmente em seu início. A saga teve como pontapé inicial a disputa entre dois amigos de infância, Cassiano (Henri Castelli) e Alberto (Igor Rickli), pelo amor da bela Ester (Grazi Massafera). Para manter Cassiano longe da amada, o vilão Alberto armou uma cilada que o jogou numa prisão bem longe, onde ficou por anos e anos. Pois o calvário do mocinho poderia ter durado meia novela, mas, poucos capítulos depois, Cassiano já estava de volta, pronto para se vingar do “amigo”. O vilão, dissimulado no início, logo viu sua máscara cair.

Mesmo assim, Flor do Caribe não foi uma novela muito ágil. Apesar de haver a preocupação em não arrastar certos acontecimentos por capítulos a fio, as novas tramas que eram propostas na sequência não eram exatamente “eletrizantes”. Com isso, seu ritmo acabou embalado na contemplação proporcionada pela fotografia exuberante (marca do diretor Jayme Monjardim) e passou a impressão de que seguia a passos lentos. Não teve barriga, mas também não empolgou. Simples assim.

No geral, o que se viu em Flor do Caribe foi um grande revival da obra de Walther Negrão. Várias situações vistas em outras novelas do autor surgiram repaginadas na atual produção. O cenário praiano mesmo já foi visto em novelas como Tropicaliente ou Como Uma Onda. Um vilão maluco obcecado pela mocinha esteve presente também na própria Como Uma Onda, ou em Vila Madalena. Até mesmo a trama da mulher mais velha apaixonada por um rapaz já está virando uma constante: Daniela Escobar e Bruno Gissoni foram o casal da vez, mas Julia Lemmertz e Thiago Fragoso, em Araguaia, ou Deborah Evelyn e Guilherme Berenguer, em Desejo Proibido, viveram o mesmo conflito.

O trio principal foi alvo de muitas críticas, mas, na opinião deste blog, não comprometeu. Grazi Massafera é uma mocinha correta (embora a Ester tenha sido bem chatinha), e seu par, Henri Castelli, realmente não aprende. Cassiano não era lá muito expressivo, mas também não chegou a ser um mocinho digno de rejeição. Igor Rickli teve um grande desafio, ao estrear na TV já como um grande vilão. Sua evolução no vídeo foi visível: Alberto cresceu ao longo da novela.

Morna toda vida, Flor do Caribe mereceu até um final morno. Com os conflitos principais todos resolvidos, a novela se despediu do público com um último capítulo tomado apenas por cenas de despedidas de praxe (felicidades, casamentos etc). E ainda ensaiou uma redenção do vilão, que tentou se matar aos 45 do segundo tempo, e foi resgatado pelo casal de mocinhos. Ester, Cassiano e Alberto encerraram a novela do mesmo jeito que começaram: juntos. Flor do Caribe apenas passou.

Por André San

Blog: www.tele-visao.zip.net

E-mail: andresantv@yahoo.com.br

Twitter: @AndreSanBlog

Compartilhe no Google Plus
    Blogger Comment
    Facebook Comment

4 comentários :

  1. concordo plenamente, texto bem escrito sem puxar o saco de ninguém, ou seja, dizer q o ator Igor Rickili evoluiu durante trama é a pura verdade, e não enaltece-lo como por exemplo dizer q é o melhor de sua geração, é muito exagero!!!

    ResponderExcluir
  2. eu falei UM DOS MELHORES, se você além de pedante também não sabe compreender as coisas, problema seu.

    ResponderExcluir
  3. Igor Rickili, segurou bem a personagem, mas tá longe de ser UM DOS MELHORES de sua geração!!! Verdade seja dita, escrita e ouvida. FALÔ!!!

    ResponderExcluir
  4. disse tudo, novela morna, bem morna, morna toda vida, mas foi uma boa distração ao fim de tarde.

    ResponderExcluir

.