Lado a Lado e a arte imitando a vida

Exibida até março deste ano e recentemente indicada ao EMMY de Melhor Novela, Lado a Lado era uma produção que se destacava entre inúmeros elementos por retratar de forma verossímil o início do século XX e suas questões tratadas na época. É um exemplo claro da arte imitando a vida, por mais distante que seja o período do tempo atual, ali enxergávamos nuances dos dias atuais que vivemos e vemos com clareza, como preconceito e a divisão entre a classe alta e baixa e as limitações que eram impostas.

Recentemente, a jornalista Daniela Arbex lançou a obra Holocausto Brasileiro, que relata a história de um hospício localizado antigamente em Barbacena (MG) onde o descaso reinava. Foram mais de 60 mil mortos e, se era para pessoas com problemas mentais, ali foram internadas pessoas que não se enquadravam nos padrões da sociedade. Gays, prostitutas, negros ou até mesmo quem se impunha perante outras questões.

Ao ler esse parágrafo acima, com certeza quem acompanhou Lado a Lado deve ter lembrado de um momento crucial e chocante da produção: após sofrer um atropelamento, quando descobria as falcatruas de sua mãe e ameaçava denuncia-lá, Laura (Marjorie Estiano), ao invés de ser levada a um hospital, acaba sendo internada pela mãe em um sanatório. Motivos? Obsessão por livros e recusa em ter filhos. Laura nesse momento encontra também Judite (Flavia Tolledo), jornalista que foi internada e esquecida no sanatório pelo marido há 11 anos. Em certo momento, Laura consegue fugir do local junto com Judite. O que ficou registrado foi a forma como enfermeiros tratavam como doentes pessoas que não tinham problema nenhum. No livro então, é relatado que até esgoto a céu aberto existia no hospício e os dramas e as alterações que acabavam surgindo entre os que não apresentavam problemas psíquicos, mas que eram forçados a conviver com quem tinha.

Além de mostrar preconceitos das mais diversas formas, Cláudia Lage e João Ximenes Braga conseguiram imprimir em toda a novela questões absurdas e que realmente ocorreram na história do país. A indicação à melhor novela pode ter vindo por conta dos excelentes cenários e adequação histórica, mas, se for levado em conta o texto e inspiração, já conhecemos a vencedora.

Obs: em abril os autores receberam um prêmio do Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (CEAP), na categoria Veículo de Comunicação por mostrar como era a vida do negro após a abolição da escravatura e fazer com que a população reflita sobre a situação atual.

* Guilheme Rodrigues

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