Regina Duarte e as novelas superlotadas

Na estreia do ótimo programa Damas da TV, exibido nas noites de quarta pelo canal Viva, a atriz Regina Duarte deu seu parecer com relação às atuais novelas produzidas pela televisão brasileira. Segundo a “namoradinha do Brasil”, um dos principais problemas dos atuais folhetins é o excesso de personagens. Para Regina, o público se apega à “meia dúzia” de personagens e, assim, quando há personagens demais, há uma dispersão da plateia.

Regina tem razão, e a superpopulação das novelas já é um problema antigo e há muito tempo discutido pelos especialistas em TV. Até mesmo a alta cúpula da Globo já estava atenta aos fatos, e teria recomendado aos seus autores não abusar do número de personagens. Até porque mais personagens significa produção maior, elenco inchado, mais custos e mais dor de cabeça. Sendo assim, a recomendação da direção da Globo fazia todo o sentido, e foi acatada por alguns novelistas. Manoel Carlos, por exemplo, que abusou de elenco numeroso em Mulheres Apaixonadas e Páginas da Vida, escreveu para menos personagens em sua última produção, Viver a Vida.

No entanto, alguns autores insistem em lotar suas tramas de gente. A última produção da Globo no horário, Salve Jorge, e a atual, Amor à Vida, vivem o ônus e o bônus de ainda lançar mão do recurso. O bônus é óbvio: mais personagens significa mais trama, o que dá ao autor a liberdade de usar mais ou menos determinado núcleo, de acordo com a demanda. Assim, um personagem que cai nas graças do público ganha mais espaço, e um personagem pouco querido desaparece de vez. Além disso, é uma “bala na agulha” do autor, que pode se dar ao luxo de deixar histórias no stand by e recorrer a elas quando surgem imprevistos (normalmente um ator doente que se afasta ou, principalmente, a necessidade de esticar sua novela).

Mas será que tal bônus supera o ônus? Afinal, uma trama com um sem número de personagens acaba ficando confusa, e até chata, para o telespectador. Como bem disse Regina Duarte no Damas da TV, o excesso de personagens faz com que o público fique mais distante e se envolva menos com a trama. Além disso, faz surgir situações bizarras, como relegar grandes atores à figuração de luxo por pura falta de espaço na saga, ou “plantar” uma história do nada, mandando a coerência para o espaço.

Mais uma vez, os exemplos negativos são Salve Jorge e Amor à Vida. Na novela de Gloria Perez, atores do naipe de Cristiana Oliveira, Eva Todor, Nívea Maria e Stenio Garcia, entre outros, amargaram pouco espaço ou aparições constrangedoras. Tal situação não é só um desrespeito ao ator. Também “prende” o ator a uma história no qual ele não tem espaço, impedindo-o de ser escalado para uma produção onde poderia ser mais bem aproveitado. A trama de Walcyr Carrasco também sofre deste mal, e também oferece as tais tramas que caem de “paraquedas” em meio ao enredo. Um exemplo do fenômeno é a personagem Marilda (Renata Castro Barbosa), que aparece de vez em quando, com algum hematoma, mentindo que caiu e se machucou. Obviamente, ela sofre com a violência doméstica, mas seu drama passa em branco. Isso porque a personagem mal aparece, o público simplesmente não a conhece. Ela apanha do marido, mas ninguém está “nem aí”, afinal, até aqui, ela não faz a diferença dentro da trama. Suas cenas surgem soltas.

Algumas das últimas produções do horário da nove da Globo não foram consideradas bem sucedidas, como Passione ou Insensato Coração. A faixa só voltou a fazer algum barulho a partir de Fina Estampa e Avenida Brasil, consideradas grandes sucessos da década. Não por acaso, tanto a história de Aguinaldo Silva quanto a de João Emanuel Carneiro apostou em poucos personagens e situações. Avenida Brasil mesmo tinha personagens e tramas paralelas bem reduzidas, e tornou-se hit. Mas Walcyr Carrasco, Gloria Perez e cia insistem em superlotar suas histórias. Morde & Assopra, uma das obras anteriores de Carrasco, padeceu do mesmo mal. Os nossos novelistas deviam ouvir mais os conselhos de Regina Duarte.

Por André San 

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4 comentários :

  1. Também concordo com o que a Regina Duarte diz. Poucos personagens deixa a novela muito mais ágil. Todo mundo tem espaço para brilhar como aconteceu em Avenida Brasil. Neste caso, menos é mais e faz todo o sentido. Atores e público agradecem.

    Abraço,


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  2. Também concordo,colocar grandes atores como 'figurantes de luxo',acho muito falta de respeito.

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  3. Também concordo,colocar grandes atores como 'figurantes de luxo',acho muito falta de respeito.

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