“Saramandaia” acerta ao denunciar intolerância

Um remake se justifica quando consegue, ao mesmo tempo, manter a essência da obra original e se adaptar ao contexto atual. Pois Ricardo Linhares alcançou tal objetivo com louvor ao revisitar a obra de Dias Gomes. Saramandaia terminou na noite de sexta, 27, com missão cumprida, ao resgatar o realismo fantástico como “muleta” para tratar de assuntos atuais e pertinentes, de maneira criativa e eficiente.

Se a Saramandaia de Dias Gomes deitou e rolou diante do contexto político da época, quando o Brasil vivia mergulhado numa Ditadura Militar, a Saramandaia de Ricardo Linhares levantou com afinco a bandeira da tolerância. O desfile de tipos esquisitos que habitavam a surreal Bole-Bole traduzia, sob as mais variadas vertentes, o quão ridículo é o sentimento de aversão daquilo que lhe parece diferente. Assim, soube realizar um tratado da aceitação sem ser moralista ou didático. Pelo contrário, o fez baseado, sobretudo, no bom humor.

O combate ao medo da mudança e a busca por um novo tempo foram retratados por meio da batalha entre os “bolebolenses” e os “saramandistas”. Os primeiros, conversadores, queriam manter seu poder intacto no comando de Bole-Bole. Já o segundo grupo, liberal, crê que a mudança de nome da cidade para Saramandaia irá trazer um novo tempo ao local, liberto aos desmandos dos “coronéis”, e com a liberdade para cada um ser o que bem quiser. O embate serviu para metáforas políticas eficientes, que bebeu da fonte do atual cenário brasileiro. Citações ao mensalão e até a recente onda de manifestações populares foram vistas em Saramandaia.

Alguns dos mais incríveis tipos de Saramandaia viviam alheios à sociedade, escondendo seus segredos com medo da rejeição. João Gibão (Sérgio Guizé, grande revelação) mantinha seu par de asas incógnito sob seu gibão, ostentando uma protuberância. Mesmo assim, sofria preconceito por ser “corcunda”. O mesmo acontecia com o Professor Aristóbulo (Gabriel Braga Nunes), que se mantinha discreto diante do fato de que se transformava em lobisomem nas noites de quinta-feira. Mesmo sendo vítima do “falatório” da cidade, o Professor ainda era respeitado pela população enquanto sua condição era apenas dúvida. A partir do momento em que os boatos se confirmaram, Aristóbulo passou a ser rejeitado pelos “bolebolenses” (grupo político a que pertencia, diga-se).

A expressão  “sair do armário” se tornou uma constante na trama destes dois personagens. Assim, criou-se uma alegoria sobre o preconceito diante da homossexualidade. Gibão e Aristóbulo viviam reprimidos em razão de suas condições, sofreram por isso, mas conseguiram buscar a autoaceitação e passaram por cima das hostilidades das quais eram vítimas. Sem dúvidas, uma excelente abordagem da questão da diversidade sexual, num momento em que se discutem absurdos como o tal projeto da “cura gay”.

E Saramandaia não criticou somente a intolerância com relação à homossexualidade, mas também a todo tipo de preconceito, seja ele social ou racial. E até mesmo a hipocrisia daqueles que defendem “a moral e os bons costumes” foi abordado. Um bom exemplo era a incrível Dona Redonda (num belo trabalho de Vera Holtz), uma defensora implacável da causa bolebolense. Redonda clamava pela tal moral, mas ela mesma agia amoralmente para defender suas ideias, armando e enganando. E ela mesma também não escapava do falatório alheio, por conta de suas formas avantajadas e sua compulsão por comida, que a levou a explodir de tanto comer.

Outro trunfo de Saramandaia foi polarizar a briga política da cidade representando-a numa rivalidade familiar entre os Rosado e os Vilar. Com isso, apresentou uma série de romances proibidos, que atravessaram gerações. O mais gracioso foi o de Tibério (Tarcísio Meira) e Candinha (Fernanda Montenegro). Impedidos de concretizá-lo no passado, ambos prenderam-se em suas amarras particulares (ela, com suas galinhas imaginárias; e ele acabou criando raízes, mantendo-se no mesmo lugar anos a fio). No momento em que o novo tempo é anunciado, os dois finalmente se livram de suas amarras e decidem ficar juntos, tornando-se uma árvore e eternizando sua união, numa das cenas mais bonitas da novela (com ares de filme de Tim Burton, diga-se). Havia também Tiago (Pedro Tergolina) e Stela (Laura Neiva), os jovens, além dos protagonistas, Zico (José Mayer) e Vitória (Lilia Cabral). Mas este último romance não empolgou, e a novela engrenou mesmo quando o foco saiu do casal.

As histórias de amor que realmente empolgaram foram a dos casais Gibão e Marcina (Chandelly Braz), e Aristóbulo e Risoleta (Débora Bloch), com tramas envolventes e intérpretes inspirados. Outros nomes inspirados do elenco, além de todos os já citados, foram os de Matheus Nachtergaele (Seu Encolheu) e Aracy Balabanian (Dona Pupu). Saramandaia também se destacou pelos belos efeitos especiais, que tornaram críveis as situações surreais que aconteciam na pequena cidade. Além da cena em que Candinha e Tibério viram árvores, também impressionaram pelo bom acabamento a explosão de Dona Redonda, as transformações de Aristóbulo em lobisomem e os voos de João Gibão.

Saramandaia não empolgou na audiência, o que é uma pena. Um dos motivos que podem ter levado a isso é o fato de ela ter sido apresentada mais tarde que suas antecessoras, O Astro e Gabriela. Cada vez mais, a Globo estica e empurra sua novela das nove para tarde da noite, prejudicando sua linha de shows, que entra depois. É questionável Amor à Vida ter capítulos com quase duas horas de duração. Mas, para quem não dormiu e acompanhou a trama de Ricardo Linhares, fica a galeria de personagens malucos, as citações espertas, as frases de efeito e os neologismos divertidos. Valeu.

Por André San

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2 comentários :

  1. Acho que o que prejudicou a novela ,além do horário,foram os erros na escalação dos atores.

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  2. Acho que o que prejudicou a novela ,além do horário,foram os erros na escalação dos atores.

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