“Sangue Bom” divertiu ao inspirar-se na própria TV

Sangue Bom teve apenas 2 pontos a mais que Guerra dos Sexos
O texto esperto e lotado de referências de Maria Adelaide Amaral e Vincent Villari já havia sido o grande trunfo do remake de Ti Ti Ti, de 2010. Em Sangue Bom, cujo último capítulo foi ao ar na última sexta-feira, 1º, a afinada dupla voltou ainda mais inspirada com suas constantes inserções metalinguísticas. Com uma embalagem juvenil e descompromissada, Sangue Bom mostrou-se, na realidade, um tratado ácido e irônico sobre o mundo contemporâneo.

A busca pela fama, em suas mais variadas vertentes, foi a tônica de Sangue Bom. Não se trata de um tema original, é verdade, mas a maneira como a abordagem foi feita ao longo destes seis meses de novela é que fez a diferença. Bastidores de produções televisivas, espetáculos teatrais e do mundo publicitário foram mostrados de maneira crítica, porém divertida. Tipos facilmente reconhecíveis circulavam pelo amplo universo de Sangue Bom, todos, à sua maneira, buscando um lugar ao sol.

Neste contexto, o grande destaque foi Bárbara Ellen, a diva decadente muito bem defendida por Giulia Gam, à vontade como há muito não se via. Bárbara era uma maluca de marca maior, capaz de fazer qualquer coisa para manter-se em evidência. Expunha os filhos adotivos à exaustão, provocava escândalos e não media as palavras, tudo para buscar uma mísera notinha que seja na internet. Uma atriz que se fez na TV, muito mais pela facilidade em atrair mídia do que pelo talento propriamente dito, Bárbara era a TV criticando a si mesma, como pouco se vê.

E foi Bárbara quem protagonizou uma das sequências mais ousadas e interessantes de Sangue Bom. Maria Adelaide Amaral e Vincent Villari passaram toda a trama citando folhetins e personagens clássicos, assim como fizeram em Ti Ti Ti. Praticamente todos os personagens da trama expunham, em algum momento, sua “verve noveleira”, citando folhetins clássicos e recentes. Mas, com Bárbara, a coisa foi um pouco além. Sangue Bom teve a audácia de fazer uma sátira nem um pouco velada e absolutamente divertida de Avenida Brasil, o mais recente hit da Globo. E se deu muito bem!

Logo no início da trama, Bárbara revelou que recusou o papel de Carminha na trama de João Emanuel Carneiro. Pois ela mesma assumiu este papel em sua própria vida, quando Tina (Ingrid Guimarães) entra em sua vida. Tina entrou na trama meio distante: foi abandonada no altar por Vitinho (Rodrigo Lopez) e ficou deprimida. Mas ela ressurge quando decide se vingar de Bárbara, que ela considera culpada pela sua infelicidade, já que  Vitinho desistiu do casório justamente por não conseguir superar a paixão que nutria pela exagerada atriz. Pois eis que, de repente, Tina surge na casa de Bárbara, como uma empregada doce e dedicada, disposta a conquistar a amizade da patroa e, na sequência, destruí-la.

Neste momento, a presença de Tina na trama se justificou, e tudo virou uma grande brincadeira. Com o mesmíssimo uniforme de Nina (Débora Falabella), a empregada vingadora da família Tufão, Tina armou sua vingança sem nunca esconder do público sua inspiração. Bem mais pirada (e esperta) que a mocinha de Avenida Brasil, Tina logo conseguiu contribuir para a derrocada de Bárbara, e até se vangloriava disso, disparando o ótimo “chupa, Nina!”. As clássicas cenas nas quais Nina maltratava Carminha em Avenida Brasil tiveram direito a “reconstituições satíricas” em Sangue Bom, em sequências que arrancavam gargalhadas. Nunca se viu (pelo menos não que eu me lembre) uma novela homenagear outra de maneira tão contundente e clara. Valeu a brincadeira! Tina, aliás, chegou a sonhar que matava Bárbara Ellen aos tiros, numa sequência idêntica ao assassinato de Odete Roitman (Beatriz Segall) em Vale Tudo. No final, as duas ainda se encontraram no reality show A que Ponto Chegamos (genial!), disputando a “preferência do Brasil”. Tina, aliás, chegou batendo panelas, tal qual sua xará do Big Brother Brasil 2.

Sangue Bom deitou e rolou no universo das celebridades, com as abordagens sempre invasivas da repórter Sueli Pedrosa (Tuna Dweik). Fez rir com as situações surreais vividas por Damáris (Marisa Orth), uma beata sem rumo que se revelou uma ninfomaníaca. Ou com o funk grudento da interessante Mulher Mangaba (Ellen Rocche) e suas amigas-frutas, que incluía até a exótica Mulher Pau-de-Jacu (Luiz André Alvim). Ótimo nome, aliás! E ainda acertou o tom no drama, com as trajetórias de personagens como Verônica (Leticia Sabatella), Rosemere (Malu Mader), Plínio (Herson Capri) e Irene (Deborah Evelyn). Também fez uma interessante abordagem da homossexualidade, com a trama de Filipinho (Josafá Filho), que se descobriu gay e enfrentou alguns percalços, até amadurecer.

E tudo isso embalado pelas idas e vindas do sexteto protagonista. Amora (Sophie Charlotte), Bento (Marco Pigossi), Malu (Fernanda Vasconcellos), Giane (Isabelle Drummond), Fabinho (Humberto Carrão) e Mauricio (Jayme Matarazzo) viveram uma ciranda de encontros e desencontros que se revelou um fio condutor eficiente.

Sangue Bom chega ao fim com missão cumprida. Texto e direção redondos, boas atuações, e, acima de tudo, uma abordagem satírica e inteligente do mundo da fama como pouco se viu numa novela. Os autores entregaram um folhetim que respeitou as características do gênero, mas que fugia do lugar-comum sempre que possível, esquivando-se de maniqueísmos e soluções fáceis. Ou seja, respeitando a inteligência do público. Divertiu e ainda provocou reflexão. Valeu!

Por André San

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1 comentários :

  1. Pior do que 'guerra dos sexos',acho que vai demorar até ter outra.

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