Walcyr Carrasco destrói Felix em “Amor à Vida”


Que Amor à Vida passou de novela promissora a papagaiada imbecilizante a gente já sabe. Mas a rocambolesca trama de Walcyr Carrasco consegue se superar a cada dia na estranha arte de se emaranhar em sua própria bagunça. No atual momento da saga, as peças se reconfiguraram novamente, dando início a uma espécie de “terceira temporada” da trama. Novos conflitos surgiram para dar conta de tantos capítulos a mais que a novela ganhou, mas, para criar estes novos entrechos, o autor acabou por jogar tudo o que havia construído nas “temporadas anteriores” no lixo.

Recapitulemos: a “primeira temporada” de Amor à Vida é aquela centrada na briga por Paulinha (Klara Castanho), jogada na caçamba por Felix (Mateus Solano), o irmão invejoso da mocinha, Paloma (Paolla Oliveira). O bebê é encontrado por Bruno (Malvino Salvador), que o cria como se fosse dele, até que ele e Paloma se envolvem, a verdade sobre a origem de Paulinha vem à tona e eles passam a disputar a criança nos tribunais. Quando a disputa termina e Bruno e Paloma se casam, dá-se início à “segunda temporada”, na qual o casal protagonista não tem mais o que fazer, enquanto o vilão, gay enrustido, é humilhado pelo pai homofóbico César (Antonio Fagundes) e começa uma briga familiar. Tal temporada chega ao fim quando, finalmente, todos descobrem que foi Felix quem jogou Paulinha na caçamba, e o vilão é escorraçado da família. Ao mesmo tempo, a vingadora Aline (Vanessa Giácomo) é alçada ao posto de vilã-mor, separando o casal Bruno e Paloma, além de praticar outras maldades.

Neste entrecho da terceira temporada de Amor à Vida, o foco está na execução do plano de vingança de Aline, que quer se vingar de César porque acredita que ele é o responsável pelo acidente que matou sua mãe e deixou sua tia Mariah (Lucia Verissimo) numa cadeira de rodas. E enquanto Aline pinta e borda sem cerimônia e César cai como um patinho bocó, Felix, o outro vilão da novela, se apaga e se apaga cada vez mais. Quando o autor Walcyr Carrasco remanejou suas peças para conseguir mais fôlego para tocar a trama, acabou destruindo uma de suas poucas construções bem-sucedidas nestes meses de novela: a trajetória de Felix.

Felix começou a novela como um grande vilão, daqueles que o espectador ama odiar. Dono de um senso de humor sarcástico e de uma frieza de ações impressionante, o administrador do Hospital San Magno levou a novela nas costas por um longo período. Não só jogou a sobrinha na caçamba sem nenhuma cerimônia, mas também roubou o hospital da família, armou para subir na empresa e até provocou o acidente de Atílio (Luis Melo), numa tentativa de assassiná-lo. Ao se unir a Glauce (Leona Cavalli), tentou impedir que Paloma e Bruno se unissem e Paulinha voltasse ao seio familiar.

Gay mal-resolvido, Felix mantinha um casamento de fachada com Edith (Bárbara Paz), mas saía com garotões por aí. Ele construiu uma “família tradicional” para tentar obter a admiração do pai, que nunca aceitou a homossexualidade do filho. Frustrado por viver uma vida de mentiras, Felix tornou-se um amargurado, o que explicava suas atitudes nada ortodoxas. Ao ter sua vida exposta pela própria mulher numa mesa de jantar, Felix deixou claro à família e ao espectador suas emoções contraditórias. Até aqui, mostrou-se um personagem rico e bem construído, num trabalho grandioso do talentoso ator Mateus Solano.

Pois o personagem, já alçado à galeria de grandes vilões da TV, agora é destruído capítulo a capítulo dentro de Amor à Vida. Nesta “terceira temporada” da novela, o vilão acabou transferido de núcleo: saiu da mansão Khoury, onde o drama imperava, e passou para a casa de Marcia (Elizabeth Savalla), cenário onde a maior parte do núcleo cômico da novela se desenvolveu. Antes de chegar à casa de Marcia, no entanto, Felix passou por algumas poucas e boas, se instalando num hotel de quinta categoria e até na casa do ex-cunhado Ninho (Juliano Cazarré). Nesta saga, viveu situações dignas de Zorra Total, lamentando o fato de ter de comer macarrão instantâneo e fugindo de uma barata. Agora, tratou de se unir à Marcia vendendo hot-dogs (alguém em São Paulo chama cachorro-quente de hot-dog?), “dando pinta” freneticamente. 

Felix saltou do drama intenso do núcleo principal de Amor à Vida à alívio cômico. Assim, transformou-se numa caricatura tosca, que em nada lembra o homem que fez tantas maldades no início da novela. “Sofrendo” ao viver uma nova “vida de pobre”, o personagem agora ganha a compaixão da audiência, como se todas as armações que realizou até aqui não mais existissem. Felix até ensaia uma relação amorosa de fato, agora que se aproximou de Niko (Thiago Fragoso), um dos personagens mais simpáticos da novela. Ou seja, o ex-vilão e atual bufão parece caminhar rumo à redenção. Um caminho que nada tem a ver com o que Felix mostrou ser nas duas primeiras temporadas de Amor à Vida.

Uma pena. Felix poderia sair de cena como um dos grandes vilões da teledramaturgia brasileira. Um vilão ousado, cheio de cores e possibilidades. Agora, será lembrado como mais um palhaço que dispara piadinhas tolas, figura comum em qualquer folhetim de Walcyr Carrasco. O autor, diariamente, dá aulas de como destruir um grande personagem em 200 capítulos. 

Por André San

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