“Além do Horizonte” é uma boa novela, afinal!


E não é que Além do Horizonte é uma boa novela, afinal? A trama, que estreou cercada de estranhezas, tem se mostrado, a cada capítulo, cada vez mais interessante. Passada a obscuridade inicial, a novela de Carlos Gregório e Marcos Bernstein revelou-se uma trama complexa e bem armada, com bons personagens, muitas viradas e ganchos eficientes. Uma aventura policial que se mostra cada vez mais empolgante. Os autores não têm economizado trama, mantendo um ritmo bastante envolvente.

Nada mal para uma novela que estreou sem dizer a que veio. Com muitos mistérios, Além do Horizonte começou com a vaga premissa da “busca da felicidade”. Personagens que abandonavam tudo em nome desta tal felicidade, uma “besta” misteriosa que atacava os habitantes de uma cidade ribeirinha da Amazônia, além de gente sumida há tempos sem grandes explicações, como LC (Antonio Calloni), tornava a trama de Além do Horizonte distante do público. Era difícil comprar a ideia desta busca da felicidade que os personagens tanto falavam. Além disso, não havia personagens simpáticos no enredo. A mocinha, Lili (Juliana Paiva) era mimada e voluntariosa. O mocinho, William (Thiago Rodrigues), não tinha um pingo de carisma. O mistério tomou o lugar do humor característico do horário, tornando Além do Horizonte uma novela de difícil digestão.

Tudo era mistério, tudo era sugestão, nada foi revelado nas primeiras semanas de Além do Horizonte. Sua trama foi comparada a de séries americanas, mas seriados têm apenas um episódio exibido por semana, com arcos de trama que permitem que o suspense em torno da trama principal prolongue-se. Mas, numa novela de capítulos diários, insistir em segredos é um risco. O público precisa se envolver com a trama para continuar acompanhando-a. Assim, só seguiu acompanhando Além do Horizonte quem acreditou que as elucidações dos mistérios valeriam a pena. Um desafio e tanto para o público conservador de novela.

Mas quem insistiu em seguir Além do Horizonte não se arrependeu. Quando a comunidade onde vão parar os personagens em busca da felicidade finalmente surgiu, a trama ganhou um norte e novos entrechos. Entraram em cena os personagens mais interessantes da obra: LC, o pai da mocinha e idealizador da comunidade; Tereza (Carolina Ferraz), mulher de LC, que orquestra um golpe contra ele; e Hermes (Alexandre Nero), amante de Tereza e também um golpista. LC aparece em cena como um idealista, liderando uma comunidade onde todos aqueles que vão em busca da felicidade vivem em harmonia. Já Tereza aparece como a grande vilã, que quer tomar do marido o dinheiro dos negócios obscuros que financiam a comunidade. Quando Lili, filha de LC, e William, sobrinho de Tereza, finalmente descobrem a comunidade, uma crise é deflagrada. Os mocinhos descobrem as falcatruas de Tereza e Hermes e Lili alerta o pai que, surpreso, provoca a prisão da dupla de vigaristas. No entanto, neste momento fica claro que LC também não é flor que se cheire, e que os negócios que envolvem a comunidade são ainda mais obscuros e nada tem a ver com a busca da felicidade.

Assim, Além do Horizonte se mostra como uma história sobre a exploração da fé alheia. LC lidera um grupo que explora pessoas simples, que passavam por problemas e foram iludidas pela possibilidade da conquista da felicidade concreta. Os membros da comunidade, enquanto acreditam fazer parte de um ideal de vida, são, na verdade, engrenagens que fazem mover um negócio que envolve muito dinheiro. Dinheiro este cobiçado pelos vilões da trama. O que se sabe é que os negócios obscuros da comunidade envolvem uma série de experimentos científicos. Mas o que é exatamente o verdadeiro propósito do lugar é que é ainda o grande mistério da trama. Todos os outros já foram revelados: já sabemos quem é, afinal, LC; sabemos que a “besta de Tapiré” era o vilão Kleber (Marcello Novaes), que criou uma série de artimanhas para manipular Tapiré (o lugar é peça-chave para o funcionamento da comunidade e Kleber é um dos braços desta organização); e já descobrimos onde estão e o que fazem todos os personagens que sumiram “em busca da felicidade” nos primeiros episódios. Agora, o delegado André (Caco Ciocler) acaba de desmantelar o esquema de Kleber em Tapiré. Mas Kleber, pretende retomar o comando da cidade, enquanto Tereza e Hermes escapam da prisão e planejam atacar LC. Ou seja, a trama fica cada vez mais eletrizante. Já ciente das peças que movem o enredo, o público já está apto a se envolver com a história e torcer por seus personagens. 

Além de elucidar vários dos mistérios, os autores de Além do Horizonte também promoveram alguns ajustes no sentido de deixar a trama mais simpática ao espectador mais conservador. Há um triângulo amoroso interessante, formado por Heloisa (Flavia Alessandra), Thomaz (Alexandre Borges) e Flavio (Guilherme Fontes). E o humor também ganhou mais espaço, sobretudo com o casal ternura Priscila (Laila Zaid) e Marcelo (Igor Angelkorte, aliás, um ótimo ator!). As cenas de Marcelo enfrentando a mãe neurótica Inês (Maria Luisa Mendonça) são divertidíssimas. Neste momento da trama, também divertem as aventuras das irmãs Selma (Luciana Paes), Rita (Mariana Xavier) e Fátima (Yanna Lavigne), que deixaram Tapiré para viverem momentos cômicos no Rio de Janeiro. Aliás, o elenco cheio de nomes pouco conhecidos tem se mostrado um celeiro de novos talentos: Laila, Igor e Luciana, além de Marcella Valente (a Julia), são ótimos.

Além do Horizonte, agora mais clara, é uma ótima e envolvente trama policial. No entanto, paga pela ousadia de fugir do arroz-com-feijão tradicional do horário das sete, e deve terminar com o ingrato título de fracasso. Sua audiência, embora tenha reagido com relação às primeiras semanas, ainda está longe da meta e sua média final deverá ser a mais baixa da história da faixa das sete. Uma pena. Além do Horizonte é uma trama interessante, que vale a pena acompanhar.

Por André San

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