“Amor à Vida”: um ótimo desfecho de uma novela irregular


Encerrou de maneira bastante digna a novela Amor à Vida. Problemática e irregular, a obra de Walcyr Carrasco deu uma de Félix (Mateus Solano) e também se redimiu no final. Brindou o público com um dos melhores desfechos de novela já visto. Ao optar por encerrar sua obra com uma simples e emocionante cena envolvendo Félix e Cesar (Antonio Fagundes), a novela coroou seus protagonistas de fato, e ainda passou uma importante e impactante mensagem ao público. Emocionou e fez refletir, de maneira profunda. Surpreendente, se considerarmos que, no geral, Amor à Vida se manteve na superfície na maior parte do tempo.

Mateus Solano e Antonio Fagundes mereceram protagonizar o episódio final. Afinal, foram os dois que levaram a novela nas costas. Amor à Vida sofria por não ter uma espinha dorsal bem definida: era uma trama frágil e lotada de furos. Assim, foram os embates de Félix e Cesar que mantiveram uma unidade narrativa que acabou por permear toda a obra e lhe conferir algum rumo. Além disso, Cesar e Félix foram os dois melhores personagens da produção, sem dúvidas. Cesar era um homem real, lotado de defeitos e contradições, capaz de amar e odiar com a mesma intensidade. Homem este construído com perfeição por um inspirado Antonio Fagundes, bem em cena como há tempos não se via. E Félix, mesmo caindo numa redenção pouco provável que lhe tirou o brilho de suas vilanias, caiu nas graças do público e soube divertir e emocionar em seus momentos finais.

Através do embate entre estas duas figuras, Walcyr Carrasco conseguiu se aprofundar na discussão da homofobia. Antes de Amor à Vida, o tema havia ganhado uma corajosa discussão em Insensato Coração, de Gilberto Braga e Ricardo Linhares. Agora, a discussão foi reacendida, desta vez dentro de casa. Enquanto Insensato focou no preconceito “externo” (que chegou ao auge quando um personagem gay morreu vítima de violência de “pitboys”), Amor à Vida falou do preconceito dentro de casa. Cesar, o pai homofóbico, jamais aceitou a homossexualidade do filho Félix, impondo-lhe uma vida de mentiras. E Félix passou boa parte da saga buscando a aprovação do pai, sem sucesso. Por isso mesmo, o desfecho de ambos coroou esta relação. A mensagem foi clara: o filho gay que o pai tanto desprezou foi quem lhe estendeu a mão quando o pai precisou. Mais importante que qualquer beijo gay (e o momento de carinho de Félix e Niko, brilhantemente vivido por Thiago Fragoso, já é história!), o emocionante acerto de contas entre Félix e Cesar foi uma digna mensagem de respeito às diferenças. Uma pena que Em Nome do Pai e Em Nome do Filho, títulos provisórios da novela, não emplacaram: tinham tudo a ver com a trama, ao contrário do genérico Amor à Vida.

Pena que Amor à Vida, como um todo, não conseguiu ser uma novela tão boa quanto em seu desfecho. O texto excessivamente didático e tatibitate de Walcyr Carrasco incomodou em praticamente toda a obra. Tudo era excessivamente explicadinho, sem direito a dúvidas, subestimando a inteligência do público. Diálogos teatrais inacreditáveis foram ditados sem cerimônia pelos atores, que precisavam cortar um dobrado para alcançar alguma credibilidade. Personagens “mutantes”, que mudavam de personalidade ao sabor do momento, também caracterizaram a obra. Isso sem falar no casalzinho romântico chato central, Paloma (Paolla Oliveira) e Bruno (Malvino Salvador), que protagonizaram somente o primeiro terço da novela e, depois, fizeram figuração de luxo.

Walcyr Carrasco errou feio ao tentar “abraçar o mundo” com sua novela e injetar um sem-número de temas, todos sem qualquer profundidade. Isso deu margem ao surgimento de personagens sem grandes envolvimentos na história, com o claro propósito de encher linguiça. Foi como se vários “figurantes” fossem promovidos a “personagem regular” por uns dois ou três capítulos, para depois voltar ao limbo. 

Vivian (Angela Dipp), por exemplo, era orelha de personagens que frequentavam seu bar. Passava despercebida. Até que um dia, quase morreu em razão do abuso de álcool, e passou ao primeiro plano. Foi internada, dando margem a uma série de diálogos didáticos sobre os males do alcoolismo. Passou a frequentar algumas reuniões dos Alcoolicos Anônimos. Alguns capítulos depois, sumiu. Aí, foi a vez de falar sobre Aids. A enfermeira Inaiá (Raquel Villar), que ninguém nunca tinha notado, descobre-se soropositiva. O namorado Laerte (Pierre Baitelli) lhe dá um pé na bunda, com direito a um dos diálogos mais toscos da história da teledramaturgia (chegou a chamá-la de “xícara suja”, como bem lembrou o colega Fabio Garcia). Ela encontra conforto nos braços do também “quase figurante” Renan (Alamo Facó). E pronto, a enfermeira some de novo. Nos últimos capítulos, foi a vez da nutricionista Marilda (Renata Castro Barbosa), que passou a novela toda aparecendo em cenas sem importância, e de olho roxo. Na última semana, seu marido lhe dá uns sopapos no hospital mesmo. Entra um delegado que cita a Lei Maria da Penha, e pronto! A discussão acerca da violência doméstica está encerrada. Amor à Vida também tentou tratar de religião, lúpus, câncer, amor na terceira idade, e até a questão judeus x palestinos (não há limites!). Tudo de maneira superficial e bizarra.

Isso sem falar em tramas paralelas dispensáveis que andavam em círculo, como o quarteto Michel (Caio Castro), Patricia (Maria Casadevall), Silvia (Carol Castro) e Guto (Marcio Garcia). Constrangedor. E o que dizer de Perséfone (Fabiana Karla)? No início, o tema era sua virgindade. Depois que o problema foi solucionado, todo mundo parece que notou que a moça era gordinha, e ela sofreu bulliyng por ser obesa. Por fim, chamou a atenção de todos com seu “bigodinho”, numa situação que beirava a grosseria. O núcleo da mansão de Nicole (Marina Ruy Barbosa) foi outro que andou em círculos e incomodou. Leila (Fernanda Machado) e Thales (Ricardo Tozzi) planejam um golpe à pobre menina rica. Ela morre, surge uma irmã, Natasha (Sophia Abrahão), que ninguém sabia que existia. Assim, a dupla de vigaristas tenta o mesmo (!) golpe de novo. Parecia uma reprise dentro da mesma novela.

Já Valdirene (Tatá Werneck), uma das sensações da novela, teve altos e baixos. Sua trama vivia loopings constantes em sua eterna busca por um marido rico. Cansou. A “piradinha” só ganhou um respiro quando entrou para o Big Brother Brasil, ocasião em que a intérprete abusou de seu talento no improviso. Valeu também a dobradinha com Elizabeth Savalla, a Márcia, ótimas! Tatá merece seu sucesso, é um talento incontestável.

No mais, Amor à Vida pregou a impunidade despudoradamente. Félix jogou bebê na caçamba, roubou e planejou assassinatos. Mas passou uma semana vendendo hot dogs e se redimiu. Todos se esqueceram de seus crimes. Até Pilar (Suzana Vieira) confessou, no final, que foi ela a responsável pela morte da mãe de Aline (Vanessa Giácomo, ótima!), e não Cesar. Ficou por isso mesmo. Dos vilões, só Ninho (Juliano Cazarré), Aline e Leila foram punidos (o primeiro foi preso, a outra morreu eletrocutada; e a terceira, queimada).

Assim, Amor à Vida valeu mesmo pela quebra de tabus, seja a já famigerada questão do “beijo gay” (que, até que enfim, deixará de ser marketing para atrair público), seja a competente discussão da homofobia. De resto, ficou devendo. 

Por André San

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