“Tudo a Ver” estreava há 10 anos e retrata apogeu e queda da Record


No dia 2 de agosto de 2004, ou seja, há quase 10 anos, a Record estreava o programa Tudo a Ver. Apresentado por Paulo Henrique Amorim e Janine Borba, e tendo como principais colunistas Ana Hickmann (moda), Edu Guedes (culinária) e Chris Flores (celebridades), Tudo a Ver era uma revista eletrônica inspirada nos programas matinais norte-americanos. Mesclando o noticiário factual com matérias especiais e muito entretenimento, Tudo a Ver estreou com a missão de elevar a qualidade da programação de fim de tarde da Record, na época em que o canal começava a colocar em prática a estratégia “a caminho da liderança”.

2004 foi o ano em que a Record resolveu ser grande. Tratou de investir em elenco e produção, e substituiu vários produtos considerados “popularescos” que exibia. Tom Cavalcante e Marcio Garcia, artistas de primeiro time da Globo, foram anunciados como grandes aquisições da emissora do bispo Macedo, surpreendendo o telespectador e o noticiário televisivo. Marcio estava no auge de sua popularidade, graças ao sucesso do personagem Marcos da novela Celebridade, recém-encerrada. E Tom Cavalcante vinha de uma trajetória intensa na programação da Globo, onde chegou a ter seu próprio programa, o Megatom, e acumulava participações em humorísticos de sucesso, como Sai de Baixo e Zorra Total. Ao mesmo tempo, a emissora buscava uma nova teledramaturgia, e exibia a malfadada Metamorphoses (o fracasso desta levou o canal a investir em produção própria, lançando na sequência A Escrava Isaura e inaugurando sua melhor fase na dramaturgia).

E o Tudo a Ver foi o símbolo desta mudança de direção que a Record vinha tomando. Pra começar, sua estreia em si já foi ousada: a atração tirou grande parte da duração de Cidade Alerta, que, na época, era a maior audiência da emissora. O programa policial, apresentado por Marcelo Rezende, apesar de bom de Ibope, foi considerado pela direção do canal uma peça destoante da nova política de qualidade da emissora. Assim, foi encolhendo. Tudo a Ver, que estreou tímido, foi ganhando espaço. E as horas a fio do Cidade Alerta foram reduzidas até a uma parca meia hora. Tudo a Ver não repetia os grandes índices de audiência do Cidade Alerta, mas, aos poucos, foi ganhando seu público e garantindo a vice-liderança para a Record. Assim, a rede sentiu-se segura à, finalmente, extinguir o Cidade Alerta. Era o fim de uma era.

Tudo a Ver, reinando sozinho no fim de tarde da Record, cresceu e apareceu. Ainda em seu início, viu sua primeira apresentadora Janine Borba ser substituída por Patricia Maldonado. A emissora considerou que o programa pedia uma apresentadora mais descontraída, e Patricia, que fazia reportagens para o programa Sem Saída (de Marcio Garcia), foi promovida para o posto. Logo, Paulo Henrique Amorim e Patricia Maldonado se tornaram uma dupla divertida e afinada, que transitava muito bem entre o noticiário sério e os momentos de diversão e descontração. 

Tudo a Ver se tornou uma agradável opção de informação de fim de tarde, bem longe do mundo-cão de seu antecessor Cidade Alerta. Além de se mostrar como um informativo leve e eficiente, o Tudo a Ver, graças ao seu formato flexível, permitia praticamente tudo. E o programa serviu para testemunhar todo o progresso que a programação da Record galgava. Foi no Tudo a Ver que Roberto Justus anunciou a estreia de O Aprendiz, o mais bem-sucedido reality show da história da Record. No mesmo palco, Paulo Henrique Amorim e Patricia Maldonado receberam Eliana, que anunciava a estreia do seu programa dominical Tudo É Possível, marcando uma virada em sua carreira dedicada aos programas infantis. No mesmo espaço, Marcio Garcia anunciou a estreia de O Melhor do Brasil, programa de sábado que substituiu, com sucesso, o Programa Raul Gil. E foi no Tudo a Ver que a Record foi buscar os nomes de Ana Hickmann e Edu Guedes para compor o elenco de seu novo matinal, Hoje Em Dia.

O Tudo a Ver também testemunhou o crescimento da teledramaturgia da emissora. Não foram poucas as matérias sobre A Escrava Isaura, atração que sucedia o programa na grade. Prova de Amor, o primeiro grande hit das novelas da Record, também foi pauta do programa. Era o momento que a Record consolidava sua estratégia de investimentos em programas de qualidade e tomava a vice-liderança absoluta do SBT, que não soube estancar o crescimento da rival. E tudo isso sem abrir mão de seus quadros de prestação de serviço, dicas variadas, informação e diversão. Além dos colaboradores já citados, faziam sucesso também os quadros de Sophia Camargo (sobre Economia), Luciano Facciolli (de denúncia e prestação de serviço) e Maria Cândida (sobre cinema). Tudo cabia no Tudo a Ver.

Essa fase vitoriosa do Tudo a Ver durou até 2006. Aos poucos, inexplicavelmente, a Record passou a esvaziar a atração. Paulo Henrique Amorim foi transferido ao Domingo Espetacular, e Luciano Facciolli assumiu o vespertino ao lado de Patricia Maldonado. Aos poucos, o programa foi arrefecendo até sumir de vez. Facciolli foi transferido para o Hoje Em Dia, enquanto Patricia Maldonado tornou-se apresentadora do Jornal 24 Horas, nas madrugadas. Algum tempo depois, a emissora resgatou o título Tudo a Ver, exibindo-o no horário nobre, com a apresentação de Patricia. Mas não era mais o mesmo programa: era somente um apanhado de matérias reprisadas de outros jornalísticos da emissora.

A partir daí, a Record sucateou o título Tudo a Ver. Depois de sair do horário nobre, o título tornou-se um programa vespertino apresentado por Maria Cândida, que foi o embrião do primeiro Programa da Tarde. Depois, virou um samba do crioulo doido, exibido nos mais diversos horários e ganhando várias apresentadoras diferentes, como Carla Cecato, Adriana Reid, Thalita Oliveira e Tina Roma. Em sua última versão, Tudo a Ver era um programa dominical que exibia vídeos da internet e pegadinhas. Tina Roma era a apresentadora. Saiu do ar para dar espaço ao atual Domingo da Gente.

E enquanto o Tudo a Ver “metamorfoseou-se” diversas vezes, as tardes da Record viveram um sem-número de momentos. Novos programas foram lançados, muitos enlatados surgiram, mas nada funcionou. Até que, um belo dia, alguém resolveu resgatar o Cidade Alerta. Depois de algumas tentativas frustradas, o Cidade Alerta finalmente refortaleceu-se e, hoje, apresentado por Marcelo Rezende, é a maior audiência da emissora. Ou seja, dez anos depois, a Record voltou ao ponto de partida. A trajetória envolvendo o fim do Cidade Alerta, o surgimento do Tudo a Ver, seguido do enfraquecimento deste último até a triunfal volta do Cidade Alerta representa bem o que, de fato, se tornou a estratégia da Record “rumo à liderança”. Um ciclo de dez anos que se mostrou “voo de galinha”, fazendo a emissora dar um giro de 360º. O que falta? A mesma ousadia que levou o canal, dez anos atrás, a abrir mão de seu principal sucesso em nome de uma programação de qualidade. Tudo a Ver, apogeu e queda, nada mais é que o apogeu e a queda da própria Record.

Por André San

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4 comentários :

  1. Saudade eterna do Tudo a Ver, melhor vespertino dos últimos 300 anos.

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  2. O erro da record foi querer 'bater de frente' c/ a globo e tentar assumir a liderança,coisa que o sbt tenta há anos s/ conseguir.vão ver se agora c/ seus fracassos ela 'baixa a bola' e aceita que dói menos'.

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  3. A Record cometeu 2 erros... O primeiro foi tirar o TáV do ar... O segundo foi não colocar ele no ar ao invés do medonho Prog. da Tarde. Tudo á Ver é um dos poucos programas da Record que tenho saudade. Aproveitando... que nomezinho mais... esse do novo programa do Geraldo. Domingo Show é tão cara do Gilberto Barros...

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  4. Eu gostava do formato antigo do Tudo a Ver. Atualmente, a Record só produz programas de qualidade duvidosa. Se tivessem mantido a linha que estavam desenvolvendo há dez anos atrás, possivelmente hoje a emissora estaria muito mais próxima da tão sonhada "liderança". Poderia não estar na posição de líder, mas estaria muito mais firme e forte no segundo lugar de audiência.

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