“Em Família” tem problemas maiores que a escalação

Por João Paulo Reis

Que "Em Família" tem trazido sérios problemas para a Globo todo mundo já sabe. Desde sua estréia, a última novela de Manoel Carlos causa estranhamento no público, seja pela lentidão em que a história acontece ou mesmo em relação à tão comentada escalação de atores. Mas analisando a história como um todo "Em Família" tem outros grandes problemas:

1) Falta uma trama bem delineada


Não, meu caro leitor, o enredo da última Helena não chega a ser uma trama. A moça aos 20 anos se apaixonou pelo primo Laerte, mas encantava o amigo Virgilio. Laerte, doente de ciúme, extremamente possessivo e com forte desvio de caráter comete um crime contra o amigo, perde a noiva, vai preso, volta 20 anos depois, e aí? A impressão que se tem é que Maneco deixou a história aberta demais na sinopse não deixando possibilidades para que o público torça pelo casal protagonista. Talvez se Helena não tivesse se casado com Virgilio por pena, seria mais interessante que ele fosse seu par romântico, afinal ele foi o mais querido e o mais humanizado quando a novela estava em sua segunda fase.

2) Construção de Personagens


Manoel Carlos disse em diversas entrevistas que a Helena de "Em Família" seria uma mulher com qualidades, mas também com muitos defeitos. E o que vemos na tela é uma personagem que em nada lembra a menina do passado. Muitos podem dizer que o sofrimento a endureceu, afinal ela perdeu o amor da vida, perdeu um bebê e por aí vai, mas a personagem de antes era animada, viva, e até um pouco safada. Isso a aproximava do público, criava identificação, e a Helena da terceira fase é uma mulher amargurada, que briga por muito pouco, tem necessidade de afirmar valores e regras, não brinca e sorri raras as vezes. Em suma, Helena é chata, talvez a mais chata das Helenas, e aí nesse caso, não há motivos para torcer por ela.

Os demais personagens são também pouco carismáticos, não chamam atenção, apenas Shirley pela excentricidade e por diferente de Helena estar sempre sorrindo e alegre.

3) Construção de enredos x valores morais


Outro problema da novela se refere à construção dos enredos em discrepância com o pensamento do público. Novelas (das 21 horas, sobretudo) são assistidas das classes A a E, e constituem o maior produto cultural brasileiro, mas são também obras mercadológicas (falarei mais num próximo texto), e precisam gerar empatia com o público, que ainda é MUITO conservador, e tende a rejeitar certos enredos:

Clara e Marina: A promessa de um casal lésbico na novela foi dissolvida grande parte pelas críticas, não por serem duas mulheres, mas pela forma como Maneco inseriu a trama.  Clara, uma mulher casada, com filho e com uma vida feliz (embora não financeiramente estável) se encanta por Marina, a fotógrafa que mesmo sabendo que a outra tem uma família, acaba entrando no meio do casal como uma verdadeira destruidora de lares. Para completar, Cadu tem uma doença grave, e precisa do apoio da esposa que fica dividida entre ele e o amor de uma outra mulher. Mesmo se preocupando com Cadu, Marina queria tirar Clara dele, e esta queria estar com Marina mesmo que para isso precisasse largar o marido em seu momento mais difícil. Novamente, o público torceria por um casal que quer fazer sua felicidade em cima da desgraça de alguém (que é um cara boa praça ainda por cima)?

Luiza e Laerte: Em pesquisa realizada pela Globo, concluiu-se que o público rejeita Luiza ficar com Laerte, o grande amor da vida da mãe. Aqui entra algo maior que isso: valores morais distorcidos. Luiza sabe que Laerte era o grande amor da vida da mãe, sabe que ele a fez sofrer, foi preso por quase ter tentado assassinar seu pai, não é uma pessoa com emoções estáveis e nem 100% confiável e mesmo assim o seduziu para ficar com ele. Não que o público não entenda o desejo imaturo e o tesão que a garota sente pelo homem do passado dos pais, isso tem seu charme, mas novamente é algo que bate de frente com o conceito de respeito e união familiar, ou seja, para o público Luiza não passa de uma traidora.

Alice: Aqui um assunto bem mais delicado é colocado em pauta. Alice foi concebida a partir de um estupro. A trama que poderia reacender a discussão sobre a posição da Igreja católica em relação ao aborto no caso de penetração não consentida acabou caindo no marasmo da menina que mesmo sob o pretexto de procurar um criminoso, quer a todo custo conhecer o pai. Um pequeno exercício: Amando sua mãe, que a criou sozinha, e sabendo que ela sofreu tamanha violência, seria de sua vontade realmente conhecer o agressor?

Juliana: O desejo de Juliana sempre foi ser mãe, mas isso gerou nela transtornos psicológicos extremos que faria qualquer médico colocar a personagem sob observação, afinal já foram muitas as provas de que ela não é uma mulher normal. Tentativa de homicídio, furto, obsessão seqüestro, casar-se com um homem para obter a guarda da filha dele, e tentar ganhar tudo dele através do sexo. 

André: A história de André consegue ser o maior clichê possível, do filho adotado que quer conhecer a mãe biológica. O problema é que André longe de parecer uma vítima das circunstâncias foi adotado por uma mulher negra que ele apenas rejeita e sente vergonha de ter como mãe, mesma ela sendo incrivelmente doce com ele.

4) Falta Humor



Sabe o que fazia de "Avenida Brasil" uma novela agradável? Ela não tinha núcleo de humor. Todos os personagens eram bem humorados, e tinham cenas de humor vez ou outra. Não sou contra aos autores que destinam essas cenas à um determinado núcleo, porém em "Em Família", o núcleo que deveria ser o mais bem humorado acaba por se transformar no mais deslocado da história, ou alguém realmente acha graça nos velhinhos do "retiro dos artistas"?

5) Identificação com o público


Não tem como amar ou se importar com personagens que não geram identificação com seu público? Por que o público amou a Carminha? Por que o público amou Félix? Porque mesmo caricatos, eles tinham emoções semelhantes às emoções reais. "Em Família" trouxe em suas duas primeiras fases momentos interessantes de identificação com os personagens (ok, os capítulos de frente são sempre os mais bem trabalhados devido ao tempo), mas hoje é difícil se enxergar refletido nas ações dos personagens da novela. 

Outro ponto crucial: A novela tem jovens em excesso, e pior, a trama gira em torno deles como se fosse uma "Malhação" mais séria. O público adulto acaba vendo esse como um universo distante de sua realidade.

Mesmo que nas últimas semanas a trama tenha melhorado seu tom e ganhado novas perspectivas, talvez não seja possível mudar a essência dos enredos e personagens, visto que já estamos na metade da novela e não vimos muita coisa acontecer de seu início pra cá.

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4 comentários :

  1. Se fosse só o elenco,estava bom.Concordo c/ todos esses pontos citados.Em resumo a novela é um fracasso.

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  2. Concordo com tudo
    Sabe o que eu gosto de ver nessa novela pelo site como já disse em outro post Barbara e Andre o chichê da moça fora dos padrões estéticos e virgem que se apaixona e conquista o seu amor aos poucos.Em família para piorar criou aqueles momentos em família ao invés dos depoimentos reais das outras duas últimas novelas do maneco que eram muito tocantes e inspirações.
    Cláudia Taissa

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  3. Sebastian, não considero que a novela seja um fracasso. Por algum motivo ela consegue me prender, mas o público brasileiro agora consome outras mídias, e anseia por personagens um pouco mais críveis.

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  4. Cláudia, creio que o "Momentos Em Família" seria melhor aproveitado se fosse utilizado como forma de divulgação da novela em chamadas, pois dentro da novela ele acaba se destoando do resto. Quanto à Bárbara e André, até o momento me parece o típico enredo Cinderela, da menina que fica bonita e passa a chamar atenção do rapaz.

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