Clichês de "Boogie Oogie" fazem da novela um deleite


Desde a estréia de “Boogie Oogie” venho ensaiando escrever um texto sobre a novela das seis horas da Rede Globo, mas somente agora, quase um mês depois, posso sim escrever com certa propriedade de quem não simplesmente se encantou pelo primeiro capítulo, embora este realmente tenha me encantado. 

“Boogie Oogie” assim como “Meu Pedacinho de Chão” é uma novela excelente, e vem prometendo até mais do que cumpriu em suas chamadas. Seu enredo simples é daquele tipo que faz a gente pensar “Por que não tive essa idéia antes”, com alguns variados clichês, mas aqui dispostos de forma extremamente agradável e não previsível. Após mais de 20 capítulos no ar, a trama não perdeu força, pelo contrário, ganhou uma costura maior entre núcleos de personagens e tramas.  A novela traz de volta duas características importantes que andaram um tanto perdidas nas últimas tramas exibidas pela emissora: ganchos atraentes que levem o telespectador a assistir ao capítulo seguinte, e uma história que faça quem assiste sentir algo, afinal telespectador inerte não é telespectador conquistado. 

A trilha sonora é apenas um ponto a favor, já que a trama usa e abusa de verdadeiros hits da década de 1970, e creio que aqui não cabe inclusive julgar se uma música X ou Y foi lançada antes de 1978, ano em que a produção acontece, mas sim ao clima que determinada canção remete dentro do contexto da obra audiovisual. Quem já era nascido na década de 1970 certamente vai se sentir mais próximo dos personagens e universo da novela. Por falar em época, um grande acerto dos roteiristas foi usar a temporalidade de outra década (mas não tão distante), já que a base da história poderia ser contada até nos dias de hoje, exceto pelo fato de a tecnologia tirar o charme de alguns aspectos, como a demora para a chegada de informações e desenvolvimento de conflitos, entre eles o principal deles, envolvendo a troca de bebês. Para muitos “telespectadores-fiscais”, os figurinos e cenografia soam atuais demais, mas devemos lembrar que a moda é cíclica, e cada vez mais estamos revisitando o passado ou o referenciando das mais diversas formas, por isso, a moda setentista não chama tanta atenção, causa estranhamento ou mesmo não parece tão deslocada ou distante no tempo. E perceberam que só através da moda e música é que identificamos quando a novela se passa? Nenhum fato histórico além da Copa de 1978 e aumento da inflação fora citado, nem mesmo um aprofundamento das condições políticas e sociais que o Brasil vivia, possivelmente para mostrar que uma obra ficcional pode sim existir sem a interferência da realidade. 

Os personagens não são densos (e nem podem ser), mas são ideais para criar o entendimento para o público do horário, afinal às 18 horas não é possível discutir aspectos como profundidade de caráter e ou filosofias existenciais, apenas saber se iremos torcer para uma personagem ou outra. E por falar em personagens, a novela que tem um enfoque muito grande nos jovens, sem esquecer dos mais velhos. Merece destaque a atuação dos atores veteranos Betty Faria, que está praticamente tomando a novela pra si e dando um verdadeiro show na pele de Madalena, Francisco Cuoco com seu teimoso Vicente, e nos capítulos mais recentes, Laura Cardoso que mesmo com pouquíssimas cenas já nos enche os olhos por conseguir dar o sem tom tão característico a cada personagem, por menor que ele seja. 

O ponto alto da novela em minha opinião é o texto, bem amarrado, com diálogos coesos e excelentes sacadas cheias de referências pop ou simplesmente irônicas em relação ao Brasil que vivemos hoje.  Vale destacar:

“Tão possível quanto um preto ser presidente dos Estados Unidos” – Susana (Alessandra Negrini) falando sobre Tadeu (Fabrício Boliveira), um homem negro querer ser diplomata.

“Quem é que vai querer morar na Barra da Tijuca? Aquilo lá é um deserto tropical” – Cristina (Fabiula Nascimento) para Mário (Guilherme Fontes), sobre a venda de apartamentos no lugar que hoje é um dos metros quadrados mais concorridos do Brasil.

“Me deixa que eu quero ver quem matou o Salomão Ayala” – Vicente (Francisco Cuoco) sobre a novela no ar naquele ano, em que o ator interpretou o protagonista Herculano.

“O John Travolta pode esperar!” Sandra (Ísis Valverde) para Cláudia que queria colocar um quadro na parede.

“Encontrar o bebê desaparecido está mais difícil do que encontrar o Elvis” Inês (Deborah Secco) falando sobre Elvis Presley, falecido em 1977.

Além disso, outras referências estão inclusas no texto como certo personagem ter dito que queria inventar um aparelho capaz de possibilitar ouvir música em movimento. O primeiro Walkman foi inventado no Japão com o nome de Soundabout no ano seguinte (1979). Portanto, “Boogie Oogie” é uma novela leve, alegre, e com qualidade comparável a de outros horários. Vale a pena!

*João Paulo Reis

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1 comentários :

  1. Oi João Paulo! Eu me peguei assistindo a alguns capítulos de "Boogie Oggie" não pela história em si, mas principalmente pela trilha sonora. A novela é lotada de clichês batidos e a reconstrução histórica deixa um pouco a desejar. Quem assistiu "Pecado Mortal" sabe do que estou falando. E acho que o telespectador no fundo não quer mudança na teledramaturgia: as novelas mais ousadas como "O Rebu" e "Geração Brasil" sofrem rejeição por fugir do lugar comum. "Boogie Oggie" foi construída para esse público tradicional. Não é um desmérito ser assim, pelo contrário: foi uma saída precisa. Ainda bem que o autor teve essa sacada e conseguiu emplacar um sucesso em seu primeiro trabalho autoral na Globo. E isso não é para qualquer um.

    Abraço,

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