Jussara Freire celebra os cabelos grisalhos e é categórica: "Eu me acho uma delícia!"


Uma das principais atrizes do Brasil, Jussara Freire está comemorando 42 anos de carreira prestes a voltar a gravar "Plano Alto". A produção foi bastante elogiada pela crítica e, por conta da repercussão positiva, teve a encomenda de uma segunda leva de episódios, e isso apesar dos números de audiência que foram aquém da produção assinada por Marcílio Moraes.

Na trama, Jussara é Dora Titino, personagem que se aproxima da política após o neto envolver-se com grupos anarquistas. Em entrevista exclusiva concedida ao RD1, a veterana afirmou ser extremamente importante que os brasileiros sejam mais ativos para não serem um "gado mandado": "É preciso se mostrar cidadão e fazer-se cidadão. Ai sim você assina uma democracia."

Raridade num veículo em que a maioria faz questão de aparentar juventude eterna, Jussara assumiu os cabelos grisalhos, afirma sentir-se "uma delícia" e é categórica: "gente de atitude se mostra como realmente é!".

Confira a íntegra da conversa:

RD1 - São mais de 40 anos de profissão, tendo passado por diversas emissoras de TV do país. O que Jussara Freire ainda não fez? Existe uma personagem dos sonhos?

Jussara Freire - Não existe. Eu acho que tem uma época, principalmente quando somos mais jovens, que sonhamos em fazer um personagem específico. Mas depois, eu acredito que a gente deixa de sonhar com “aquele” personagem. Eu tenho 42 anos de carreira e acho que passei dessa fase de sonhar para desejar sempre ter um bom personagem porque agora, qualquer personagem que eu venha fazer, eu serei protagonista dele.

RD1 - Você tem grandes personagens dramáticas e também ligadas ao humor. Quando lhe convidam para um papel, qual detalhe julga como fator fundamental para aceitá-lo?

Jussara Freire - Em televisão os personagens são abertos, afinal, trata-se de uma obra aberta. Então, não adianta dizer esse "eu faço" ou "esse não faço". Um exemplo: em "Pantanal", que foi um grande sucesso, a minha personagem Filó era no início muito pequena e, com o tempo, foi crescendo dentro da trama por gosto do autor Benedito Ruy Barbosa e também do público. No final, ela terminou como a grande protagonista da novela, quando acaba como a grande matriarca da família. Ela se tornou um grande personagem. Em relação ao humor, eu penso que qualquer ser-humano está ligado ao humor, ao amor e ao drama. Não dá pra dividir. Eu costumo dizer que tem coisas que são muito trágicas, mas que para algumas pessoas vira comédia. Exemplo: se eu escorrego numa casca de banana é comédia para que vem vê, mas um drama para quem passa por isso. A grande chave de se fazer uma boa comédia é a inspiração e a matemática, porque é preciso saber o time certo para isso.

RD1 - "Plano Alto" foi definida por muitos críticos como um dos melhores trabalhos da Record e ganhou uma segunda temporada. Quais são suas expectativas para esta sequência?

Jussara Freire - As expectativas totais, mas agora estou nas mãos do autor Marcílio Moraes!

RD1 - A minissérie foi ao ar num momento decisivo para o Brasil, ano de Eleições, e repercutiu as manifestações do ano passado. Acredita ser importante que os brasileiros se imponham mais? Você declarou ter participado de movimentos estudantis no passado...

Jussara Freire - Eu não só acredito que seja importante e também não é apenas uma questão de se impor. É preciso se mostrar cidadão e fazer-se cidadão. Ai sim você assina uma democracia, senão você vira um gado mandado. Participei de movimentos estudantis e sempre fui seguidora de Mahatma Gandhi. Ele derrubou o império inglês na Índia apenas com a palavra, nunca pegou em armas. Então, não acredito em movimentos de guerrilhas ou guerra civil, eu não gosto disso. Os extremos não acontecem. Quando eu participei desses movimentos, eu era uma estudante que não participava de movimentos específicos. A gente tinha grupos de estudos em que aprendíamos e nos era mostrado o quanto qualquer tipo de ditadura é danosa para o espirito humano.

RD1 - Em uma declaração recente, tratou sobre a alegria de trabalhar novamente com Marcílio Moraes. O trabalho enquanto atriz flui melhor quando o artista está num meio em que sente-se bem?

Jussara Freire - Com certeza absoluta. O ser-humano vive melhor em um ambiente melhor. Em um ambiente de estresse, você não consegue trabalhar, principalmente na minha profissão. Uma atriz precisa observar o outro, então, se eu estiver sob pressão, não farei bem feito, não terei olhos para enxergar o outro. Trabalhar com o Marcilio de Moraes é muito sério porque ele capta cada fala, cada fotograma humano e consegue colocar isso como poesia, como arte em seus personagem. É fácil fazer Marcilio de Moraes, assim como é fácil fazer Benedito Ruy Barbosa, porque eles escrevem para atores e para o público, não para satisfazer uma vaidade, um ego. Eles não são personalistas.

RD1 - Em mais de quatro décadas como atriz, reconhecida nacionalmente, que momentos curiosos se recorda das abordagens feitas pelo público?

Jussara Freire - Uma história muito interessante foi quando eu fazia a Filó, em "Pantanal", na TV Manchete. Isso aconteceu há 25 anos, em uma época em que não existia a internet e os meios de comunicação eram precários. Então, eu recebi uma carta que foi escrita para a Filó por uma senhora. Ela acreditava que a Filó existia de verdade e dizia que faria muito gosto se eu (a Filó) visitasse a sua casa e pedia para que eu levasse um dos queijos que a Filó fazia e uma vaquinha de leite. Achei uma judiação a TV Manchete não explorar isso. A novela "Pantanal" estourou nacionalmente, o Brasil todo parou para ver. Naquela época (1990) não tinha internet, não tinha telefone na fazenda em que a gente gravava no Pantanal mato-grossense. Um dia, aconteceu uma coisa muito bonita, que me marcou muito: a produção comprou uma antena parabólica para que os moradores da fazenda pudessem assistir à novela e reuniu todo o pessoal e foi lindo. Um desses moradores me falou uma frase que me emocionou: “Eu não tinha ideia que a gente morava num lugar tão bonito”. Ouvir aquilo foi e ainda é para mim muito emocionante.

RD1 - Você está num grupo de artistas que assumiram os cabelos grisalhos. Como é nadar contra a maré numa profissão na qual as pessoas são muito vaidosas e fazem de tudo para aparentar ter menos idade?

Jussara Freire - As pessoas são muito vaidosas e fazem de tudo para aparentar menos idade, mas eu não me incluo nessas pessoas. Pretendo fazer uma “refrescada na pele”. Gosto e quero manter o meu cabelo e, se precisar, posso usar perucas em cena sem qualquer problema. Hoje em dia temos muitas opções e acredito que gente de atitude se mostra como realmente é. Eu me acho uma delícia.

RD1 - Numa carreira tão repleta de papéis, dos mais variados tipos, quais listaria como "as personagens da sua vida"?

Jussara Freire - Nem gosto da expressão “personagens da minha vida”, porque a minha vida artística é muito longa e tenho certeza que farei outros lindos personagens. Mas tem alguns que mantenho um carinho especial. Por ordem cronológica: Olga, de “Eramos Seis”, na TV Tupi; Filó, de “Pantanal”, na TV Manchete e Clotilde, de “Éramos Seis”, no SBT. Amei fazer a Siá Bina, em “Cabocla”, e também fiz um trabalho maravilhoso na Record, que inclusive foi premiado pelo APCA, que foi a Carmem em “Vidas Opostas”.

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