"É meio chato você ir se despedindo da vida", desabafa Tarcísio Meira


"Nenhum ator jamais terá decorado tanto quanto eu. Não sei como tenho neurônios ainda. Devem estar muito cansados.". A afirmação é a prova da longa e consolidada carreira de Tarcísio Meira, que o próprio conta ao programa que encerra a série "Grandes Atores", neste sábado, dia 18 de julho, às 18h30, no VIVA.

"Por todo o meu passado e por tudo o que a televisão viveu, talvez eu seja emblemático", sintetiza um dos protagonistas de "2-5499 Ocupado" (1963), primeira novela diária da TV. "Era o número do telefone do Teatro de Cultura Artística, onde estava a Excelsior. Não queríamos fazer, achávamos uma historinha meio ‘mixureca’, romântica, mas a reação do público foi extraordinária. O ibope subiu de 7% para 37 ou 40% em 30 dias. Nunca poderíamos imaginar que houvesse tanta gente que se apaixonasse assim por uma novela", lembra.

Dali por diante, começava a despontar um dos atores mais renomados da história da televisão brasileira. Entre seus papéis memoráveis, elege o peso de João Coragem, de "Irmãos Coragem" (1970). "Talvez tenha sido o personagem mais importante da TV brasileira, pois desencadeou uma série de comportamentos com relação às novelas. Foi a primeira que os homens viam, por ser de aventura. Era fantástica! Ainda hoje tem gente que chega e fala: ‘ó o João Coragem ai!’", conta. Além das atuações, Tarcísio é conhecido por formar com Gloria Menezes um dos casais mais simbólicos e duradouros - a união completa 51 anos - da TV. "Nos conhecemos no teleteatro, na Tupi. A Glória é uma ótima atriz, sempre gostei muito de trabalhar com a minha mulher. As pessoas têm muito carinho pelo casal", resume.

Reconhecido pelos papéis de galã, Tarcísio também fala sobre o preconceito contra o gênero: "As pessoas falavam do galã com julgamentos, não admitiam que, eu fazendo personagens românticos, pudesse ser um ator. Isso sempre me aborreceu muito. Mas, tudo bem, acho que os papéis de galã são os mais difíceis, porque eles são apaixonados, não têm muitas características que os diferenciem de outros personagens". E completa: "Hoje em dia não existe mais papel romântico na televisão, acho que as pessoas não amam mais.".

Vencido o preconceito e com uma das trajetórias artísticas mais brilhantes do país, o entrevistado resume a profissão: "O ator é aquele que acredita verdadeiramente no personagem que está fazendo e procura mostrá-lo com suas verdades ao público. É aquele que consegue convencer ao público da existência de seu personagem e comovê-lo com as emoções que passa. Se ele conseguir, se for loquaz, estará cumprindo seu papel de ator.".

A experiência ainda permite Tarcisio a aconselhar as novas gerações de autores: "Quando um autor cria personagens, ele cria personagens bons, fortes. Se ele fizer isso com inteligência, com brilho, com força, basta fazer os personagens. Pois quando colocados juntos, eles desencadeiam uma história. Os personagens não ficam ao sabor dos acontecimentos que o autor trama. Ele contextualiza acontecimentos como uma decorrência do vigor desses personagens. Acho isso uma coisa muito boa para se pensar a respeito. Tenho visto muitas novelas que têm acontecimentos desencadeados por outras coisas e que não têm personagens com sustância."

No bate-papo, Tarcísio também fala sobre sua fazenda no Amazonas e sua relação com a natureza. "Tenho uma fazenda na Amazônia há 40 anos. Enfrentei grandes dificuldades lá. Não havia a preocupação ecológica que existe hoje em dia, que tem que existir mesmo. As pessoas desmatavam livremente, uma coisa de doido. Sempre mantive a regra do jogo, mas se você olhar a 300 km de Belém existe uma mancha verde, é a minha fazenda. Quando quero momentos de reflexão, momentos de volta para mim mesmo, vou para lá. É incrível, você se integra à natureza."

O veterano ainda faz um balanço dos anos de atuação e da própria vida. "É uma carreira corrida, mas que me deu muitas alegrias e que me proporcionou, especialmente, essa intimidade com as pessoas. Não há lugar aonde eu vá que as pessoas não sejam carinhosas comigo e com a minha mulher. Isso não há dinheiro que pague. Tenho milhões de amigos. Estou com quase 80. É ano à beça! E é muito ruim, porque você chega mais perto do fim. Não sei quando será, mas sei que será. Não me assusta, mas eu gosto muito de viver, gosto muito das pessoas, dos homens, das mulheres, dos bichos. De tudo. Prefiro não pensar a respeito, mas é meio chato você ir se despedindo da vida", desabafa.

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