"O ator sempre deve pensar que é protagonista", diz Murilo Benício


"A Globo fez vários sucessos nesses 20 anos em que trabalho na emissora, mas, dois fenômenos: "O Clone" (2001) e "Avenida Brasil" (2012). E eu estive neles, ainda bem", comemora Murilo Benício, o homenageado do "Grandes Atores" deste sábado, dia 11 de julho, às 18h30, no VIVA. Prestes a completar 44 anos no próximo dia 13, o convidado faz um balanço profissional e aborda questões pessoais como a relação com a família e a superação da timidez.

"Decidi ser ator com oito anos. Muito precoce, né? Nessa idade, quando aparece esse pensamento, você quer largar a escola para estudar teatro. Eu pensava 'estou perdendo meu tempo aqui'", conta, rindo. O estalo inicial deu-se quando assistiu Charles Chaplin. "Eu não sabia o que era aquilo, mas ele me transmitiu uma emoção. Me identifiquei muito. E aí começou, nunca pensei em outra coisa", comenta. Murilo passou a frequentar o Tablado, mas lembra que a timidez o atrapalhou no início. "Quase não subia no palco, e não conseguia me misturar de jeito nenhum com os colegas. Mas é engraçado o quanto eu sabia que era aquilo que queria para a minha vida, porque eu poderia ter desistido. Acho interessante entender como isso não me afetou", reflete o ator que ainda estudou no Teatro Abel e na CAL (Casa das Artes de Laranjeiras).

Diante das câmeras do VIVA, Murilo reforça que valoriza a troca dos atores em cena. "Todos os meus grandes sucessos com certeza tinham um parceiro muito bom ao lado. Ajuda muito esse encontro.". Para o convidado, também é fundamental o empenho, independentemente do tamanho do papel. "Acho que o ator sempre deve pensar que é protagonista. Se ele aparece mais ou menos na história, isso é um problema de quem está escrevendo. Se você está interpretando uma pessoa, não vai fazê-la menor porque aparece menos. Acho que isso é o que faz as pessoas notarem o esforço, a disposição, a vontade. Por menor que seja, quando você faz com muito carinho é perceptível.".

Murilo coleciona papéis variados e caricatos ao longo de sua trajetória. Para ele, a entrega à composição dos personagens é prioridade. "É muito difícil as pessoas me dissociarem deles porque sou um cara que já está fazendo isso há muitos anos. Então, cada vez me proponho mais a fazer com que o espectador esqueça que sou eu.". A riqueza de detalhes também é uma marca de Murilo para caracterizar seus trabalhos. Em sua estreia na TV, como Fabrício de "Fera Ferida" (1993) - atualmente no ar no VIVA -, o diferencial surgiu espontaneamente. "A princípio, era um lixeiro politizado que tinha a língua presa. Eu nunca tinha entrado num estúdio como aquele, fiquei nervoso e gaguejei. O diretor gostou e pediu para colocar no personagem.". Outros exemplos de seu currículo versátil são: Juca Cipó ("Irmãos Coragem" - 1995), Danilo ("Chocolate com Pimenta" - 2003) e Arthur ("Pé na Jaca" - 2006).

Ainda sobre a montagem de seus trabalhos, Murilo destaca o boom das camisas extravagantes de Dodi, de "A Favorita" (2008). "Eu tinha acabado de fazer um personagem de terno e gravata, aí sugeri de arriscarmos com camisas de seda, meio abertas. Lembro que, quando fomos comprar mais na mesma loja, tinha vendido tudo. Entendo o João [Emanuel Carneiro] ter ficado chateado, porque achava que o estilo não combinava com o personagem, mas já era tarde demais. Fez o maior sucesso aquelas roupas horrorosas", diz, gargalhando.

Outra parceria de sucesso com o autor foi "Avenida Brasil" (2012), em que Murilo deu vida a Tufão. "João brincou comigo de que estava me dando uma 'roubada'. O personagem não era nada fácil. O Tufão era um cara passivo, que assistia. Então, as pessoas tinham que ver tudo no seu olho. Ainda mais um cara que é traído.". Durante o depoimento, Murilo também fala sobre a liberdade que João dá para os atores mexerem no texto. "Acho que é o primeiro autor que gosta. Na minha opinião, o ator cuida só de uma pessoa. Já o autor, de 30. Quando não é de 50. Com certeza, chega uma hora que o ator tem mais propriedade do que está sendo dito. E o João sabe disso".

Murilo se emociona ao falar sobre a perda dos pais: "Acho que é a primeira vez que realmente bate 'a vida não é para sempre'. Quase pensamos que não faremos mais as pazes com a vida.". Sobre o relacionamento com os filhos Antônio e Pietro, tem como base a criação que recebeu do pai, Mário Benício. "Me sinto quase que obrigado a ser parecido com o que ele foi para mim. Nada é mais sagrado do que passar o fim de semana com meus filhos na fazenda, e lá encontrar meus irmãos. Tudo o que eu tive tento passar para os meninos.". E quando o assunto é a parceira Débora Falabella, Murilo derrete-se: "Estou com uma pessoa que é muito parecida comigo de alma e, ao mesmo tempo, sendo muito diferente. Isso é muito bom.".

Ao ser questionado sobre o que é ser ator, Murilo resume e agradece: "É acreditar numa brincadeira. É um privilégio tão grande viver do que se gosta.".

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